segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Recomendado da Semana 23 a 29/10/2016

A GUERRA DO FIM DO MUNDO - MARIO VARGAS LLOSA

O LIVRO
Em 1977, depois do sucesso com o romance "Tia Julia e o escrevinhador", Mario Vargas Llosa começou a escrever um romance que seguia um caminho diferente: em vez de usar suas memórias para compor uma história de forte veia cômica, ele decidiu recontar a dramática Guerra de Canudos, impressionado pela leitura, alguns anos antes, de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Em 1980, após exaustivas pesquisas em arquivos históricos e viagens pelo sertão da Bahia, ele terminava A guerra do fim do mundo, livro que, hoje, é reconhecido como o seu tour de force. Nele, o habilidoso escritor peruano constrói uma saga que engloba tudo; honra e vingança, poder e paixão, fé e loucura. “Este romance me fez viver uma das aventuras literárias mais ricas e exaltantes”, escreve Vargas Llosa no prefácio a essa edição. “Peregrinei por todas as vilas onde, segundo a lenda, o Conselheiro pregou, e nelas ouvi os moradores discutindo ardorosamente sobre Canudos, como se os canhões ainda trovejassem no reduto rebelde e o Apocalipse pudesse acontecer a qualquer momento naqueles desertos salpicados de árvores sem folhas, cheias de espinhos.” O resultado disso é um livro inesquecível, um épico moderno sobre Antônio Conselheiro e um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira. Lançado originalmente em 1982, esse é o primeiro romance que Vargas Llosa situou fora do Peru. Nele, o autor dá uma nova dimensão à história de Antônio Conselheiro, em que personagens de carne e osso, alguns reais, outros imaginados, empreendem uma saga sem paralelos na história do país.

O AUTOR
Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em Arequipa (Peru), em 1936, e passou a infância na Bolívia. De volta ao Peru, estuda Direito e Letras. Em 1959 vai para Madri, onde faz doutorado em Filosofia e Letras. Muda-se para Paris, como redator da France Presse. Seu primeiro livro, Os Chefes, é de 1959. Obtém sucesso internacional com o romance Batismo de Fogo (1962), traduzido para várias línguas. Em 1964, regressa ao Peru e realiza sua segunda viagem à selva amazônica. Trabalha como tradutor para a Unesco, na Grécia. Pantaleão e as Visitadoras sai em 1973. Pelos próximos anos, reside em Paris, Londres e Barcelona. Em 1981, publica A Guerra do Fim do Mundo, no qual narra a história da Guerra de Canudos. Volta ao Peru em 1983; sete anos depois concorre às eleições presidenciais (chegando ao segundo turno). Em seguida, muda-se para Londres, onde vive até hoje. Entre seus muitos títulos de ficção, jornalismo e ensaio, cabe mencionar os mais recentes: A Linguagem da Paixão (2002), Paraíso na Outra Esquina (2003), Travessuras da Menina Má (2006), O Sonho do Celta (2010) e O Herói Discreto (2013). Em 7 de Outubro de 2010 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura pela Academia Sueca de Ciências "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual". O então presidente do Peru, Alan García, considerou o prêmio a Llosa como "um reconhecimento a um peruano universal".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Desinteresse pelo livro - Salomão Laredo

Revendo meus recortes de jornais, encontrei este artigo de Salomão Laredo, escritor e jornalista paraense, que foi publicado em O Liberal, 21 de abril de 2004. Reproduzo-o na íntegra, por achá-lo interessantíssimo e ainda muito atual. Deleitem-se!

DESINTERESSE PELO LIVRO

Alguns amigos que sabem que há mais de vinte anos vou às escolas para conversar com os estudantes sobre a importância da leitura e do livro no sentido de fomentar o hábito de ler, perguntam-me por que o brasileiro não lê. Creio que sejam inúmeras as causas, mas podemos sublinhar algumas, dentre elas: percebo que a família não está educando os filhos nesse sentido. Outra: inexiste campanha sistemática e permanente (todo o tempo) para formar leitores. Há pouquíssimas bibliotecas e, por não serem lugares agradáveis de se ir e estar, mais afastam do que atraem o possível leitor.
A geração leitora de livros está passando e quem está chegando quase não tem o costume de ler, e quem não lê, não pode servir de exemplo, que é o que move alguém a alguma coisa. A experiência que adquiri nestes tempos em contato com professores e alunos (e assim imagino realizar trabalho mais eficiente, produtivo e útil às instituições de que faço parte) me autoriza a dizer que, na família onde os pais são leitores, não há necessidade de se falar aos filhos sobre a importância da leitura, basta o exemplo.
Claro, quem lê vai à livraria, biblioteca, banca de revista e leva os filhos que, pouco a pouco, percebem a importância desse saudável e salutar hábito de adquirir conhecimento, informação, moedas de ouro nestes tempos mundializados. Quem lê, dá livro de presente aos filhos, aos amigos, aos parentes, fala de livros, comenta, opina sobre conteúdo e isso vai incentivando outros.
Quem não é leitor, infelizmente, encontra todas as razões para se desinteressar por leitura. Vai justificar que os livros são inacessíveis porque custam caro nas poucas livrarias (que diminuíram de 800 para 600 em todo o Brasil) do lugar; que as bibliotecas estão fechadas nos horários  em que poderiam frequentá-las, que não há as obras que gostaria de ler, que são espaços calorentos, poeirentos, com atendentes mal-humorados e que há desconforto nas mesas e cadeiras. Muitas reclamações assim procedem, sem dúvida.
Os livros deveriam ser subsidiados para chegarem mais baratos às mãos de quem deseja adquiri-los (embora eu ache que nem de longe isso chegar a ser um interdito ou problema para que alguém leia). As bibliotecas públicas deveriam ser lugares mais abertos, atraentes, sedutores, com um bom acervo, permanente aquisição de novas obras e profissionais - bibliotecários - trabalhando alegres e felizes, com um digno salário, condições de atendimento e o prazer de estar fazendo o que gosta por livre opção de mercado.
E o que dizer das bibliotecas escolares? Com suas destacadas exceções, infelizmente, por não serem prioridades do sistema (não possuem infraestrutura de funcionamento) o pessoal tem que se esforçar bastante para essa ausência infraestrutural não vir a colaborar no desinteresse maior por livro e leitura. O aluno que vem de uma casa onde há total desinteresse por livro e quer mais permanecer nos vídeos games ou no futebol. É mais prazeroso, claro.
E bibliotecas que nunca abrem ao público, que ficam escondidas nos fundos da escola e que a função (por falta de condição) é só para alguém copiar trecho de livro didático como "trabalho de pesquisa"?
É certo que temos muitos avanços, que há muita gente e instituições trabalhando pela formação do leitor. Mas é preciso que todos nos empenhemos.
Temos que trabalhar muito e todos juntos para formar leitor, para exigir que os governos tenham políticas públicas que priorizem a leitura e tudo que daí decorre para que as novas gerações se tornem leitoras, gente com consciência social que vai fazer a diferença em uma nova sociedade que deve ser construída por cada um de nós.
No domingo passado, dia 18 de abril, transcorreu o Dia do Livro, quando foi aberta a Bienal do Livro de São Paulo. Meditemos o que podemos fazer para que se amplie o interesse de todos pelo livro e pela leitura. No mínimo, lutemos para que os governos mantenham campanhas permanentes na formação do leitor e adoção de novos espaços para o leitor e para o livro. Elejamos, neste ano eleitoral, políticos que se comprometam efetivamente com isso. A mudança vai acontecer.
É assim, com sério e permanente investimento em educação e cultura, que passam pela leitura e pelo livro, que adquirimos consciência social, que renovamos os cidadãos, que garantimos o aperfeiçoamento democrático, que ganhamos, nesse mar de diferentes, o entendimento de que tanto precisamos para nossa civilização. E aí, com certeza, alguém pode querer saber: por que o brasileiro lê?

domingo, 6 de setembro de 2015

Livro Recomendado da Semana - 13 a 19/09/2015

UMA TRAGÉDIA AMERICANA - THEODORE DREISER

O LIVRO / COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

Um dos valores da obra de Theodore Dreiser, escritor estadunidense de início do século XX é ter como objeto de suas histórias a classe trabalhadora. Por Ronan
Talvez demore muito tempo para que uma pessoa consiga perceber o quanto os populares são excluídos das pinturas, novelas e romances. No Brasil, o hábito é que uma população empobrecida se acostume embasbacar com um cotidiano de elite apresentado pela televisão. Ao contrário, tal como em romances de Victor Hugo, Leon Tolstoi, John Steinkbeck, Émile Zola, Fiódor Dostoiévski, tem-se presente, em Theodore Dreiser, o universo popular.
Uma Tragédia Americana é um livro extenso que compensa o esforço. Publicado por Dreiser no ano de 1925, a obra narra a odisseia de um jovem pobre em busca da ascensão social. O livro parece mesmo a biografia de qualquer um dos milhões de jovens que se pode encontrar em qualquer cidade grande: Clyde, o herói da história, passa pela origem humilde, o encantamento com o mundo do consumo, as variadas formas de tentar negar a condição de pobre e trabalhador, o conflito entre os valores familiares e a cultura juvenil, entre o compromisso com o orçamento familiar e o luxo possível, o abandono de preceitos morais e do caráter pelo sucesso a qualquer preço. O livro sintetiza bem a filosofia do mundo contemporâneo: vencer na vida, quando isso é sinônimo de dinheiro, fama, glamour. Vencer na vida, independente do preço moral da vitória. Com efeito, Clyde se dispõe a abandonar irmãos e pais, depois uma namorada grávida e até mesmo assassiná-la na busca do sucesso.
O romance também faz um retrato exato das relações de afinidade e parentesco que a elite tece para se manter coesa e no poder, das práticas culturais e dos símbolos utilizados para se distinguir dos populares, do profundo desprezo com que enxerga os pobres e do cinismo (insensibilidade) com que encara a condição dos trabalhadores. Da mesma forma, mostra como e elite joga por terra qualquer condicionamento moral quando se trata de livrar um dos seus e manter o status.
De uma perspectiva anticapitalista, Uma Tragédia Americana é ainda envolvente porque narra o abandono dos valores de classe por um jovem proletário que acaba por ferrar-se no encantado mundo de consumo e glamour da elite: hipnotizado por ela, é trucidado em suas mãos. Em vários momentos da história, Clyde tem a oportunidade de constatar o desprezo e a condição subalterna a que é voltado, mas permanece em seu encalço até o desfecho. Ele prefere arriscar tudo, até mesmo a vida, a permanecer como trabalhador. Nesse aspecto, a história de Clyde se assemelha a de tantos jovens pobres que preferem o crime, tragédia certa, a quatro ou cinco horas de condução diária, trabalho estafante e salário baixo, pouco valor social.
A tragédia mostra a adoção pelos explorados da perspectiva dos exploradores e a violência em que isso se processa. De início, Clyde é somente um jovem pobre, filho de protestantes fanáticos que, junto com os filhos, vão cantar e pregar no centro da cidade. É um jovem feliz e bem encaminhado moralmente, sem dúvidas quanto ao destino da vida. Aos poucos ele vai se dando conta de como ele e sua família, por pregarem na rua, por estarem alheios aos consumismo, são ridicularizados pelos demais jovens, que caçoam de suas roupas, de seu corte de cabelo, de seu jeito de ser. Percebe como são vistos os pobres e as pessoas sem vaidade e sem ambições. De como os que não têm dinheiro são tratados como pessoas de segunda ou terceira: sua adesão aos valores urbanos e consumistas é desencadeada pela vontade de ser tratado decentemente. Eis que, na mais miserável das periferias, jovens que consigam ter um Nike no pé ridicularizam e humilham aqueles que não o possuem.
A história serve para ilustrar como que ao exploradores não basta explorar, é necessário segregar e humilhar. Não bastasse a pobreza decorrente da desigualdade social, se procura fazer do pobre um ser de humanidade inferior. Não bastasse os trabalhadores sustentarem com seu suor a riqueza e luxo dos poderosos, eles pretendem, ainda, colocarem-se como moralmente superiores, mais belos, inteligentes, esforçados, puros. Ao mesmo tempo, procuram individualizar os problemas sociais, fazendo com que o pobre se culpe por sua condição e, introjetando os valores do mundo que lhe é negado, se veja como um sujeito menor. Uma Tragédia Americana é um livro e tanto. Trata-se de um romance que vai fundo na análise social e na crítica aos valores dominantes ao enfatizar a miséria moral do mundo do sucesso a qualquer preço.
Fonte: www.passapalavra.info/2009/02/850

O AUTOR

Theodore Herman Albert Dreiser (Terre Haute, Indiana, 27 de Agosto de 1871 - 28 de Dezembro de 1945) foi um escritor e ativista político norte-americano. Sucedeu Franck Norris como o escritor mais representativo do naturalismo nos Estados Unidos.
Seu pai era um imigrante alemão católico, enquanto a mãe pertencia a uma comunidade menonita de agricultores estabelecidos em Dayton, Ohio, tendo sido repudiada após seu casamento e conversão ao catolicismo. Theodore era o 12º de 13 filhos - nodo de dez sobreviventes.
de 1889 a 1890, Theodore frequentou a Universidade de Indiana, antes de ser reprovado. Por vários anos, escreveu para o jornal Chicago Globe e depois para o St. Louis Globe-Democrat.
O seu primeiro romance, Sister Carrie (1900), conta a história de uma mulher que troca a vida do campo por uma vida fútil na cidade de Chicaco, Illinois. O segundo romance, Jennie Gerhardt, foi publicado no ano seguinte. Grande parte da obra subsequente de Dreiser trata de injustiças sociais.
Seu primeiro sucesso comercial, Uma Tragédia Americana (1925), é a história de um jovem de caráter instável surpreendido por acontecimentos que o levam à execução por assassinato. O romance deu origem a um filme em 1931 e novamente em 1951

Dreiser não é tão apreciado por seu estilo mas sobretudo pelo realismo de seu trabalho, pela construção dos personagens e por seus pontos de vista sobre o estilo de vida americano. Teve grande influência sobre a geração de escritores americanos que se seguiu à sua.
Politicamente, Dreiser envolveu-se com várias campanhas contra a injustiça social, incluindo o linchamento do sindicalista Frank Little, um dos líderes na Industrial Workers of the World, o caso Sacco and Vanzetti, a deportação de Emma Goldman e a condenação do líder sindical Thomas Mooney.
Em 1935 a Associação das Bibliotecas de Warsaw, Indiana, ordenou a queima de todos os trabalhos de Dreiser existente nos acervos.
Theodore Dreiser, um militante socialista, ou antes, comunista, escreveu vários livros de não-ficção sobre questões políticas, dentre os quais Dreiser Looks at Russia (1928), sobre sua viagem à União Soviética, em 1927; Tragic America (1931) e America is Worth Saving (19141). Elogiou a União Soviética sob Stálin durante o Grande Terror e a aliança com Hitler.
Filiou-se ao Partido Comunista Americano em agosto de 1945. Em dezembro, faleceu em Hollywood, de ataque cardíaco, aos 74 anos. Encontra-se sepultado no Forest Lawn Memorial Park, Glendale, Los Angeles, nos Estados Unidos.

sábado, 29 de agosto de 2015

Livro Recomendado da Semana - 30/08 a 05/09/2015

PANTALEÃO E AS VISITADORAS - MARIO VARGAS LLOSA

O LIVRO

Pantaleão Pantoja tem um senso de disciplina tão profundo que é encarregado pelo Exército peruano de organizar um bordel itinerante. Sua missão é reduzir as taxas e estupro nas zonas militarizadas, oferecendo prostitutas aos soldados. Em cartas enviadas a seus superiores, ele relata o seu sucesso e os testes que faz pessoalmente com a visitadoras. Tudo vai bem até ele se apaixonar pela mais bela das prostitutas.
O jovem capitão Pantaleão Pantoja foi treinado para ser um dos mais eficientes oficiais do Exército peruano. Disciplinado, respeitador das hierarquias, estava preparado para enfrentar qualquer tipo de missão militar.
mas a tarefa que lhe foi designada superava todas as expectativas de um sério oficial de carreira: organizar um bordel na selva amazônica e amenizar a forma sexual da soldadesca que, no isolamento da mata, passara a violentar as mulheres locais, pondo em risco a reputação das Forças Armadas nacionais.
Embora tivesse sempre aspirado a ser um herói de guerra, e não um cafetão das florestas, Pantoja aplica meticulosamente seus conhecimentos de estratégia e de logística na implantação do "serviço de visitadoras" - codinome para o lupanar equatorial. O problema é que nem a disciplina mais férrea foi capaz de evitar um envolvimento amoroso do capitão, perfeito pai de família, com a menina mais bela do "regimento".
Neste romance, Mario Vargas Llosa exibe mais uma vez a sua fantástica capacidade de contar histórias que têm ao mesmo tempo um pé bem plantado na realidade, e outro, no delírio.
No caso, o leitor pode se recordar das investidas bélicas de um Peru em guerra contra o Equador, aqui solapadas por uma comédia erótica que desmonta qualquer pretensão de heroísmo.

O AUTOR

Jorge Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em Arequipa (Peru), em 1936, e passou a infância na Bolívia. De volta ao Peru, estuda Direito e Letras.
Em 1959 vai para Madri, onde faz doutorado em Filosofia e Letras. Muda-se para Paris, como redator da France Presse. Seu primeiro livro, Os Chefes, é de 1959. Obtém sucesso internacional com o romance Batismo de Fogo (1962), traduzido para várias línguas.
Em 1964, regressa ao Peru e realiza sua segunda viagem à selva amazônica. Trabalha como tradutor para a Unesco, na Grécia. Pantaleão e as Visitadoras sai em 1973. Pelos próximos anos, reside em Paris, Londres e Barcelona.
Em 1981, publica A Guerra do Fim do Mundo, no qual narra a história da Guerra de Canudos. Volta ao Peru em 1983; sete anos depois concorre às eleições presidenciais (chegando ao segundo turno). Em seguida, muda-se para Londres, onde vive até hoje. Entre seus muitos títulos de ficção, jornalismo e ensaio, cabe mencionar os mais recentes: A Linguagem da Paixão (2002), Paraíso na Outra Esquina (2003), Travessuras da Menina Má (2006), O Sonho do Celta (2010) e O Herói Discreto (2013).
Em 7 de Outubro de 2010 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura pela Academia Sueca de Ciências "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual". O então presidente do Peru, Alan García, considerou o prêmio a Llosa como "um reconhecimento a um peruano universal".

COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

Por Cassiano Elek Machado da Folha de São Paulo

Pantaleão e as Visitadoras é um livro safado. E não apenas pelas safadezas de seu ardido enredo. Militar exemplar, estilo Ordem e Progresso, o capitão Pantelão Pantoja, recebe uma missão de importância capital para sua pátria: montar um serviço de "visitadoras" para os soldados que, isolados em guarnições perdidas na transpirante Amazônia peruana, vinham se transformando em estupradores em série.
Na organização desse delivey de moças de fino trato, Pantita topa com ossos duros de roer: a igreja tacanha, a imprensa sensacionalista, uma burocracia de fazer corar Kafka e, desafio maior, uma morena apelidada de Brasileira.
Romance com o qual Vargas Llosa, em suas próprias palavras, "descobriu o humor", Pantaleón finta todas essa coleção de arcaísmos latino-americanos com a leveza de um passarinho. Com um texto ágil, mas que incorpora recursos narrativos sofisticados, o escritor peruano consegue neste livro publicado há quarenta e dois anos algo semelhante aos dribles de Mané Garrincha.
É divertido, mas contundente; parece simples, mas tem grande engenho; deixa qualquer leitor estatelado no chão. Romance de pernas tortas, Pantaleão e as Visitadoras é definitivamente um livro safado.

sábado, 22 de agosto de 2015

Livro Recomendado da Semana - 23 a 29/08/2015

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS - GEORGE ORWELL

O LIVRO
O sonho de um velho porco e criar uma granja governada por animais, sem a exploração dos homens concretiza-se com uma revolução. Como acontecem com as revoluções, a dos bichos também está fadada à tirania, com a ascensão de uma nova casta ao poder. Nesta fábula feita sob medida para a Revolução Russa, todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros.
Num belo dia, os animais da fazenda do sr. Jones se dão conta da vida indigna a que são submetidos: eles se matam de trabalhar para os homens, lhes dão todas as suas energias em troca de uma ração miserável, para ao final serem abatidos sem piedade. Liderados por um grupo de porcos, os bichos então expulsam o fazendeiro de sua propriedade e pretendem fazer dela um Estado em que todos serão iguais.
Logo começam as disputas internas, as perseguições e as exploração do bicho pelo bicho, que farão da fazenda um arremedo grotesco da sociedade humana.
Publicada em 1945, A Revolução dos Bichos foi imediatamente interpretada como uma fábula satírica sobre os descaminhos da Revolução Russa, chegando a ter sido utilizada pela propaganda  anticomunista. A novela de George Orwell de fato fazia uma dura crítica ao totalitarismo soviético; mas seu sentido transcende amplamente o contexto do regime stalinista.
Mais do que nunca esta pequena obra-prima da ficção inglesa parece falar aos nossos dias, quando a concentração de poder e de riquezas, a manipulação da informação e as desigualdades sociais parecem atingir um ápice histórico.

O AUTOR
George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, nasceu em 1903, em Bengala (Índia), filho de um funcionário britânico e uma francesa. Muda-se para a Inglaterra em 1911, e vai para um internato. De 1917 a a921, estuda no Eton College, uma das mais tradicionais escolas inglesas, onde tem aulas com o escritor Aldous Huxley. Em 1922, recusa uma bolsa para a universidade e volta à Índia para trabalhar na polícia imperial.
Retorna à Inglaterra em 1928. Vivendo na pobreza - chega mesmo à mendicância -, vaga por Londres e Paris até meados de 1930. Em 1933, publica seu primeiro livro, Na Pior em Paris e Londres.
Socialista, vai para a Espanha, em 1936, lugar na Brigada Internacional em apoio ao recém-eleito governo popular. Lutando na Espanha (1938) narra suas experiências na Guerra Civil Espanhola.
Durante a Segunda Guerra Mundial Orwell trabalha como correspondente de guerra para a BBC. Em 1945, publica A Revolução dos Bichos, até hoje sua obra mais popular. Outro livro conhecido em todas as línguas é o seu romance 1984 (1949), uma sátira pessimista sobre a ameaça de tirania política no futuro.
George Orwell morreu em 1950, na Inglaterra, em consequência de uma tuberculose. Entre outras obras, escreveu também Dias na Birmânia (1934), O Caminho de Wigan (1937) e Por que Escrevo (1946).

COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

Por Fernando de Barros e Silva - Editor da Folha de São Paulo

George Orwell publicou A Revolução dos Bichos, numa época em que, por conivência ou desconhecimento parcial de suas atrocidades, o comunismo soviético ainda gozava de enorme prestígio nos meios progressistas. Impulsionado pela atmosfera de "Guerra Fria" - expressão, aliás, atribuída a Orwell -, o livro fez sucesso instantâneo. Ninguém, depois dele, teria o direito de ainda ser inocente.
Poucas obras seriam tão instrumentalizadas à revelia de seu autor. Crítico precoce do stalinismo, Orwell sempre se definia como um socialista de convicções profundamente democráticas.
Os Estados Unidos transformaram o seu livro numa peça de propaganda do anticomunismo e a CIA chegou a providenciar uma versão em desenho animado, distribuída no mundo inteiro, com a cena final adulterada. Morto em 1950, aos 46 anos, Orwell provavelmente teria morrido uma segunda vez, de desgosto, ao ver sua obra desvirtuada pelas engrenagens do macarthismo.
O comunismo, pelo menos na forma que o conhecemos, pertence hoje ao cemitério da história. A Revolução dos Bichos, porém, sobreviveu à experiência que o tornou possível.
A fábula dos animais que se rebelam contra o tirano que os explorava e, em nome de ideais igualitários, constroem uma sociedade ainda mais opressiva, preserva seu interesse e para em pé mesmo sem referência imediata à história.
A linguagem quase simplória e as alegorias transparentes fazem do livro uma delícia para crianças. Mas não só. Sua máxima moral, de que "todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros", talvez traduza, para o bem e para o mal, uma das poucas verdades ancestrais acerca da dominação, da Idade do Bronze aos dias que correm.

sábado, 15 de agosto de 2015

Livro Recomendado da Semana - 16 a 22/08/2015

ANGÚSTIA - GRACILIANO RAMOS

O LIVRO

Romance em que Luís da Silva, funcionário público e escritor frustrado, confessa de forma desesperada um homicídio. A vítima, Julião Tavares, havia conquistado a mulher que Luís amava. A construção caótica do texto reflete o estado mental de um sujeito feio que se apaixonara por uma jovem de cabelos de milho, unhas pintadas, beiços vermelhos e o pernão aparecendo. Aqui, o humilhado se vinga com palavras.

Luís da Silva tem 35 anos, é funcionário, escreve eventualmente para os jornais e leve uma existência que se poderia considerar, em todos os aspectos, ordinária. No entanto, o seu mundo interior, cheio de "estranhos hiatos", está longe de ser banal. Narrador de sua própria história, Luís da Silva vive ruminando frustrações intelectuais, memórias da infância, o desejo incontrolável pela vizinha Marina e o ódio pelo bem-sucedido Julião Tavares, que lhe rouba a pretendente.
Escrito num andamento de pesadelo, mas com a concretude do pequeno detalhe cotidiano que é a marca do estilo de Graciliano Ramos (1892-1953), Angústia faz uma lenta imersão na consciência desse personagem complexo e atormentado, que afunda no inferno do ciúme e do ressentimento até o ponto de cometer um ato extremo.
Como bem observou o crítico Otto Maria Carpeaux, "todos os romances de Graciliano Ramos são tentativas de destruição" - e este não foge à regra. "Não sou um rato, não quero ser um rato", repete para si o protagonista.
Lançado em 1836, quando o autor estava preso pelo governo de Getúlio Vargas, o livro ganhou o prêmio "Lima Barreto" da Revista Acadêmica e contribuiu para fazer de Mestre Graça (como era conhecido pelos amigos) um dos maiores escritores da Literatura Brasileira.

O AUTOR

Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo (AL), em 1892. Um dos 15 filhos de uma família de classe média do sertão nordestino, passou parte da infância em Buíque (PE) e outra em Viçosa (AL). Fez estudos secundários em Maceió, mas não cursou faculdade. Em 1910, sua família se estabelece em Palmeira dos Índios (AL).
Em 1914, após breve estada no Rio de Janeiro, trabalhando como revisor, retorna à cidade natal, depois da morte de três irmãos, vitimados pela peste bubônica. Passa a fazer jornalismo e política em Palmeira dos Índios, chegando a ser prefeito da cidade (1928-1930).
Em 1925, escreve seu primeiro romance, Caetés. Muda-se para Maceió em 1930, e dirige a Imprensa e Instrução do Estado. Logo viriam São Bernardo (1934) e Angútia (1936, ano em que foi preso pelo regime Vargas, sob a acusação de subversão).
Memórias do Cárcere (1953) é um contundente relato da experiência na prisão. Após ser solto, em 1937, Graciliano Ramos transfere-se para o Rio de Janeiro, onde continua a publicar não só romances, mas contos e livros infantis. Vidas Secas é de 1938.
Em 1945, ingressa no Partido Comunista Brasileiro. Sua viagem para a Rússia e outros países do bloco socialista é relatada em Viagem, publicado em 1953, ano de sua morte.

COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO

Por YUDITH ROSENBAUM
Colaboradora da Folha é professora de literatura brasileira na USP

Quando Angústia foi publicado, em 1936, a maior parte da crítica não foi capaz de perceber o inusitado da obra. O texto provocava estranhamento no leitor e não se amoldava à objetividade da literatura regionalista da época. O próprio Graciliano Ramos julgava seu romance "desagradável", um "solilóquio doido", "enervante" e "mal escrito".
A linguagem é breve, sintética e concisa, marca inconfundível do autor. O amor possessivo do funcionário público decadente Luís da Silva pela vizinha Marina, ao lado da rivalidade doentia com Julião Tavares (em tudo mais potente e superior que seu agressor), montam uma trama que entrelaça o psicológico e o social. O leitor acompanha, em compasso de crescente tensão, a experiência delirante de um criminoso e o processo minucioso da gênese desse crime. Na prisão, movido pela necessidade de confessar, o narrador se empenha na escritura de um livro e através dele procede a uma autoanálise. 
Passados 79 anos da recepção inicial, Angústia se afirma como um marco da Literatura Brasileira e na trajetória do autor. Seria mesmo difícil, nos anos 30, legitimar essa escrita compulsiva, dominada pelo fluxo interno de pensamentos, lembranças e afetos do narrador-protagonista Luís da Silva. O resultado é uma narrativa imersa em clima de sonho, ou melhor, de pesadelo, banhada por alucinações, vivências sexuais reprimidas e desejos sádicos obsessivos.
O mundo relatado em Angústia é estreito e sufocante, mas o alcance literário da obra se expande, ainda hoje, para além dos limites da crítica.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Homenagem a Éfrem Galvão (1935-2015)

O AUTOR
Foto: Arquivo TV Tapajós

Nome completo: Éfrem de Jesus Neves Galvão; 
Pai: Antônio de Castro Galvão (conhecido como Pepeu); 
Mãe: Maria Neves Galvão; 
Data de Nascimento: 27 de Fevereiro de 1935. 
Local de Nascimento: Santarém-Pará, precisamente na Rua dos Artistas. 
Era casado com Ana Maria Bezerra Galvão, com quem teve 10 filhos, hoje apenas 8 Jordan, Sandra, Júlia, Sérgio, Juarez, Josué, Jáder e Ana Paula. Além desses, teve ainda dois filhos Antonio e Manuel Raimundo. 
Estudou na Escola Frei Ambrósio durante 5 anos, passando para o Ginásio Dom Amando (4 anos). Fez somente provas do Supletivo 2º Grau. Cursou Bacharelado em Ciências Sociais na UFPa. 
Criou o primeiro secador de madeiras por radiação solar da América Latina (em Santarém). Autor das seguintes publicações técnicas: "Secagem de Madeira por Radiação Solar" e "Classificação de Madeiras Serradas de Folhosas". 
Coordenou uma coletânea de Contos chamada "Mosaico Amazônico" em 2001. Era Membro da ALAS - Academia de Letras e Artes de Santarém.

OBRAS PUBLICADAS
O Jacaré e os Milagres (1979); 
A Cobra Grande e os Pescados (1982); 
A Canguçu e o Eldorado (1985); 

Romanceiro Mocorongo ou a Quase História de Santarém (1998); 

 Amazônia: Lenda e Romance (2001) - publicação que reuniu as três primeiras obras; 

A Descendência de Maria Chibé (2002); 

Vagas Lembranças de Quase Nada (2003); 

Foi Assim (2005); 

Velho Caduco e Onça Corrupta (2007)
AUTÓGRAFOS DE ÉFREM GALVÃO




PARTICULARIDADES DE ÉFREM GALVÃO
Sempre teve muita habilidade com cálculos. tinha uma leitura muito rápida. Gostava de ler, escrever, pescar, tecer malhadeiras e tarrafas; gostava de ir ao Bar Mascote com a "Donana" nas sextas, jogar baralho com o computador, assistir a documentários, filmes e noticiários, comer "docinhos" - os famosos "engasga-gato", gostava muito da combinação peixe, limão, pimenta e farinha, gostava de bolo simples e pudim de leite e achava a Camila Pitanga um "piteuzinho".

RECONHECIMENTO
Diploma de Licenciatura em Conversão Primária de Madeira fornecido pelo Ministério da Agricultura - pelos diversos cursos que fez e administrou e também por ter participado da comissão que definiu normas para a classificação de madeiras
Ganhou a Medalha João Felipe Bettendorf, que é a homanagem prestada pelo município de Santarém a quem se destaca por serviços prestados à sociedade. 
Recebeu ainda o Diploma de Honra ao Mérito do Círculo Literário do Oeste do Pará, quando de sua fundação em 2005. Era membro da Academia de Letras e Artes de Santarém. Finalmente, Éfrem Galvão foi um homem de cultura completo.

E aqui externo minha singela homenagem a um homem que sempre foi reconhecido por mim, no Colégio Dom Amando ou Júlia Passarinho onde trabalho. Era uma honra falar pessoalmente com seu Éfrem Galvão, às vezes, em frente à sua casa quando, todas as tardinhas, ficava sentado em sua cadeira de balanço, junto com sua esposa e filhos, e nunca se cansava de dar uma palavra amiga de incentivo para quem ia visitá-lo. Descanse em paz, grande amigo!!!