segunda-feira, 29 de setembro de 2025

MONIQUE MALCHER - VIDA E OBRAS

          Monique Malcher (Santarém, 26 de dezembro de 1988) é uma escritora, jornalista, antropóloga e artista plástica brasileira.

          Em 2021 recebeu o Prêmio Jabuti na categoria Contos por Flor de Gume[1]. Sendo a segunda mulher do norte a ganhar o prêmio no eixo literatura.

Biografia

        Graduou-se em Jornalismo em 2013 pela Universidade da Amazônia e concluiu o mestrado em Antropologia em 2018 pela Universidade Federal do Pará, além de ser Doutora Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina[2].

          Em 2020, pela editora Jandaíra, publicou a versão impressa de seu livro Flor de Gume, com 37 contos escritos em prosa poética, abordando três gerações de mulheres fortes do Pará e temas como alienação parental e abuso sexual. Atualmente o livro é publicado pela editora Moinhos (2025). E em 2025 publicou o romance Degola pela editora Companhia das Letras.

Bibliografia

  • Flor de Gume (2020) [contos]

  • Degola (2025) [romance]

 

Participação em antologias

  • Antes que eu me esqueça (2021)

  • Abrindo a boca, mostrando línguas (2021)

  • Geração 2010: O sertão é o mundo (2021)

  • Trama das Águas (2020)

 

Flor de Gume (2020) – Lista dos contos presentes na obra:

1. Boca de lobo

2. Suas sandálias me cabem?

3. Por entre as pedras as águas choram

4. O barco e as cartografias da esperança

5. Juçara

6. Borboleta amarela

7. Esperei você para o café

8. As palavras por debaixo da porta

9.A próxima parada

10. Quando dois pássaros se perdem

11. Um fogão entre as marés

12. Ilha do rato

13. Apartamento

14. Para voar com os ratos no verão

15. Anis

16. Erva-doce nas mãos para os dias sem você

17. Girassol

18. Camadas das memórias em lágrimas

19. Portas fechadas

20. Mármore no lugar de um coração

21. O pesadelo é um bilhete urgente do que fere

22. Um sorriso que atravessa o asfalto

23. Alecrim para dizer não fique aqui

24. Rosa vermelha

25. Vênus

26. As marés guiadas pela lua

27. A rua abraça a lua vermelha em eclipse

28. As jiboias que se espalham com a velocidade dos beijos

29. Elo

30. Abre o portão quando eu chegar?

31. Ramona

32. Cânhamo de despedidas

33. O Enforcado

34. As espumas têm seu nome

35. Os territórios que os pés desenharam

36. Hortelã

37. Beladona

 

 

ANEXO 1

 

'Meu rio foi o tutano das coisas', diz paraense que ganhou Prêmio Jabuti 2021

Monique Malcher, de ascendência indígena, venceu na categoria contos por 'Flor de Gume', que trata de temas como alienação parental, violência doméstica e abuso sexual.

Por Sílvia Vieira, G1 Santarém e Região — PA

26/11/2021 10h25

É de Santarém, a vencedora do Prêmio Jabuti 2021 na categoria Contos. Monique Malcher foi premiada pelo livro "Flor de Gume", que traz temas como alienação parental, violência doméstica e abuso sexual. A obra reúne 37 contos com narrativas de histórias de mulheres como mãe e avós de Monique, assim como de outras mulheres com quem ela cruzou em sua vivência no jornalismo, entre elas, algumas vítimas de violência doméstica.

Ainda eufórica com a premiação, foi por meio de suas redes sociais, que Monique Malcher expressou a alegria de ver seu trabalho reconhecido após ter enfrentado tantas dificuldades e até preconceito por ser do Norte.

"(....) Antes do meu nome ser retirado daquele envelope roxo ontem… ouvia a voz de Elza Soares enquanto chorava agarrada ao meu livro. Eu vou escrever até o fim, cantava na licença poética. Nunca senti o que fisicamente se inscreveu. Minha pele repuxava de meu rosto, como se o osso fosse ser minha nova casa, e muitas vezes foi. Meu rio foi o tutano das coisas, as margens. Só que estive sempre desgarrada no meião das águas, onde muitos não querem estar, onde o afogamento e o banco de areia mandam. Meus pés de aceroleira me levaram de cada dor que me rasgou até esse desmaio que me trouxe de volta para um mundo em que meu nome é retirado do envelope roxo", disse.

A autora de Flor de Gume, disse que pretende continuar escrevendo até o fim da vida, para eternizar suas palavras e ser lembrada cada vez que alguém folhear seus livros. A premiação por Flor de Gume foi também uma injeção de ânimo para a escritora.

"No dia 25 de novembro de 2021 Monique Malcher, neta de mulheres ribeirinhas, artistas, cabanas, indígenas do interior do oeste paraense, de uma cidade chamada Santarém, filha de professora… ganhou um dos maiores prêmios da literatura brasileira. E isso ninguém vai apagar", enfatizou.

Monique Malcher que começou a escrever aos 10 anos de idade é a segunda mulher paraense a concorrer ao prêmio Jabuti na categoria contos. A primeira foi Olga Savary, que ganhou a honraria em 1971 e morreu após complicações da Covid-19 em 2020. A autora santarena é só gratidão por todos que sempre a incentivaram a não desistir, em especial, sua mãe.

"Obrigada mãe por me dizer que escrever ia me tirar de qualquer inferno. E eu acredito ainda nisso enquanto sinto essa lágrima pesada cair de meu rosto, a argamassa da felicidade", escreveu Monique Malcher.

 

 

ANEXO 2

 

          O amor pelas palavras ela herdou da avó materna. Uma mulher ribeirinha e autodidata, que no auge da sua sabedoria, ensinou muitas crianças a ler e escrever no local onde ela morava. Aos 30 anos, a escritora santarena Monique Malcher, antropóloga, faz doutorado em Ciências Humanas, em Santa Catarina, pesquisando quadrinhos e literatura, se prepara para lançar seu primeiro livro. Uma obra literária que reúne vários contos sobre mulheres com diversos sentimentos. As histórias têm como personagens as avós, a mãe e outras pessoas que fizeram parte da sua infância. No livro, a autora destaca o choro da menina, a felicidade da mãe, a criatividade das idosas. Amores, decepções, violências, resiliência, sonhos.

          O livro traz muitas histórias das mulheres da região Norte e de Santarém, cidade natal da autora que tem a família repleta de mulheres envolvidas com as letras, a maioria professoras como a mãe dela. Ela foca mais sobre as mulheres que marcaram sua vida, como as avós, sobretudo a avó materna, Dulce,  de quem herdou o amor pela leitura. A única menção de um homem na obra é um conto narrado por um personagem que escreve uma carta para uma mulher, já falecida, agradecendo o fato de ela tê-lo ensinado a ler e escrever depois de adulto. A mulher é a avó dela e o homem, o avô. O conto narra essa história, que ocorre na Ilha do Rato, lugar onde o avô trabalha construindo e pintando barco, quando ela era criança.

          “A inspiração desse conto é a minha avó Dulce, que ensinou meu avô a ler e escrever, depois de adulto e essa história me marcou muito. Aí veio a inspiração para contar essa história”, lembra.

          Monique Malcher é formada em jornalismo pela Unama e fez mestrado pela UFPA em antropologia. Agora, ela faz doutorado em ciências humanas em Santa Catarina.

          O livro de estreia da escritora Monique Malcher é uma reunião de contos sobre dores e facas que cortam e perfuram a trajetória de mulheres com raízes em si mesmas. Já que a existência das mulheres não se dá só de uma maneira… esse florescer está em processo contínuo como as plantas, mas também sofrendo o arranque. A escrita de Malcher é inspirada nos diários das avós e nos poemas que troca desde a infância com a mãe.

         “São as mulheres que estão ao meu redor, me ensinando e trocando histórias e conselhos comigo, que são minha inspiração. Quando quero gritar, chorar ou comemorar me sento na frente do computador para escrever. Escrevo regularmente todos os dias. Nunca estou sozinha, apesar de fisicamente parecer que estou”, afirma a escritora.

 

A Autora

 

          Monique Malcher, tem 30 anos, paraense nascida em Santarém. É antropóloga e doutoranda em Ciências Humanas pesquisando quadrinhos e literatura. Escreve desde os dez anos de idade, já lançou produções independentes como as zines: Trinstona (2018), E a gente nunca mais se viu (2019) e Mas nem peixe? (2019). Além de manter uma newsletter que em apenas três meses ultrapassou 200 assinantes.

Também atua como colagista mesclando colagem digital e analógica. Até o início de 2020 estará tanto como colagista, pesquisadora e escritora em obras como: Mulheres e Quadrinhos (Editora Skript e Minas Nerds), Queer e Quadrinhos (Editora Skript e Mina de HQ), Emília 100 (Editora Skript e Carol Pimentel), Zine Poça #1 e Zine Coletivo Declama Mulher.

          “Minhas avós eram mulheres muito artísticas. Uma era pintora e jogava tarô, a outra escrevia poemas e fazia remédios com ervas. Quis trazer esses saberes para o livro desde a capa até as colagens na parte interna. Meu interesse são os detalhes, o cotidiano de mulheres que não são retratadas por escritores”. A capa e contracapa espelhada foram feitas pela quadrinhista paraense Beatriz Miranda, que criou a imagem de uma mulher guardiã das histórias de todas essas personagens, que carrega nas mãos um facão e um galho de proteção. “Eu queria que o flor de Gume fosse mais que um livro, mas um artefato mágico”, brinca a autora.

          “Fogão” e “Boca de lobo” trazem histórias inspiradas nas avós de Monique e nas viagens de barco que marcaram sua infância. A autora empresta alguns desses momentos para as personagens dos contos. Em “Fogão”, por exemplo, ela transcreve uma carta real da avó materna para servir de ponto de partida para o conto. Muitas histórias tem como personagens principais mulheres do norte, mostrando a relação delas não só com o interior, mas com o crescimento da cidade. Os contos também trazem temas como imigração, já que a autora vivenciou muitas vezes o ato de ter que mudar de cidade em cidade em busca de uma condição financeira melhor. A bissexualidade também é um tema presente em alguns contos.

          “Todas as mulheres do Flor de Gume não são ricas ou tiveram uma vida que se considere confortável. Considero que seja um pouco de autoficção. Não quero vender a dor, mas é através dela que aprendi a falar coisas que nunca pude, que nunca consegui. Não quero dar voz a ninguém, quero mostrar que essas mulheres já tem voz, sou apenas um instrumento. É uma colagem de partes da minha vida, da vida de amigas, mulheres da minha família, noticias, invenções. A minha tela é feminina, tem dor, mas tem alegria também”, afirma Monique.

 

Boca de Lobo – Monique Malcher (Copiar o Texto no Caderno)

 

Sempre muito desequilibrada para entrar em barcos, canoas, como se tudo que cortasse o rio fosse feito de corda bamba. Eu era mais bamba que tudo. Uma risada aqui, outra ali. Tinha graça para muitos o meu jeito de entrar no barco. Criança sente os cochichos. Meu corpo alimentava um tremendo medo de pontes. Às vezes, o que ligava o barquinho ao trapiche era só tábua improvisada, que balançava como as árvores em volta, acho que ela lembrava que foi parte de uma.

A solidão de menina era companhia no zarpar dos barcos. Alguém sempre precisava segurar firme na minha mão, caso contrário, não entrava de jeito nenhum. Queria não cair no rio, me afogar. Podia imaginar meu corpo ir tão fundo na escuridão das águas barrentas e a cor dos meus olhos enrubescendo o sol. Tudo era de madeira nem sempre tão firme.

Entrava no barco como se entrasse na vida das histórias das mulheres de minha família. Mergulhava fundo na encantaria. As embarcações eram lugar estranho e ao mesmo tempo meu território. Os pés reconheciam o banzeiro e se deixavam levar. As histórias, que já circulavam ali como visagens ou bênçãos, eram minhas bem antes da ideia de lar com quatro paredes. Os barcos eram o corpo da minha família, que construía, pintava e trabalhava neles. É preciso que se diga, sempre como empregados, nunca como patrões. Proprietários de barco, isso não éramos, mas tínhamos os nervos agarrados às nascentes dos rios que espichavam. Eu era jitinha perto de tanto conto que o rio tinha para dizer quando batia no casco da embarcação.

Gostava de ver o que minha mãe tinha trazido de comida nos potes, comer a bordo era especial, principalmente porque sempre tinha a bolacha recheada com carinhas de monstros. Aprendi com muito custo a tomar banho nos banheiros dos barcos, a gente levava uma saboneteira, uma toalha, a roupa bem dobradinha dentro de um saco de pano e a calcinha no meio das roupas para não molhar. Pés no chão nem pensar, se uma ferpa entrasse sabe-se lá quantos dias levava para conseguir tirar cutucando com agulha. E criança é fácil se machucar ou pegar bicho de pé.

A água caía do cano, não tinha chuveiro, uma porrada d’água que doía o cocoruto. Dava para ouvir as conversas, o motor, o tintilar da louça do almoço ou da janta sendo lavada, aquele conjunto marrom transparente que toda casa de vó tem, que não quebra por nada. Um pedaço de mim, que saía com água e sabão, voltava para o rio. Eu era parte dele, sentia, mesmo que fosse pequena para explicar.

Viajar de barco era voltar para o que sou.

As mulheres com seus filhos ou com suas mães idosas apressavam nosso banho, esmurravam a porta: “Bora, cunhantã, tá chocando um ovo aí?”. É que eu gostava muito de brincar com espuma, esquecia da vida. Era uma dessas crianças que criavam histórias com tudo, imaginava que ali era onde ficava o timão... eu ia dando a direção, porque sempre queria as profissões masculinas e ao menos uma vez dar o norte de alguma coisa.

Mamãe sempre dizia que lugar bom era longe do motor, que era para ficar longe também do andar de cima onde os homens ficavam bebendo. Sabia que havia lugares do barco que não eram para mim, e eu não era mesmo de me desgarrar para explorar. Gostava de ficar sentada na beirada, nos bancos extensos de madeira, eram horas olhando o barco desafiando o rio, ouvia meio intrusa as histórias que as senhorinhas contavam de um barco parecido que virou em algum lugar.

Já sabia contar muito bem. Contando os coletes salva-vidas, concluí que era pleno risco, não tinha o suficiente. Desde essa época, o terror de não saber nadar me acompanhava, mas misteriosamente amava estar na água. Só me aterrorizava saber que talvez não sobrevivesse a um desastre desses, mas a mamãe sentia minha tristeza. Sem eu falar uma palavra, ela dizia: “É muito seguro, sabia que o seu tio ajudou a construir este barco?”. E num instante me sentia parte do barco de novo, uma das tábuas pintadas de vermelho. Ficava tudo bem.

O motor cantava uma canção, solitário, é que ninguém queria atar a rede ao seu lado. Imaginava como funcionava a engrenagem de tudo, se o motor tinha sido, em outra vida, um velho senhor abandonado por todos. Será que era igual um relógio? E que horas são quando a gente avista o brilho da cidade? Às vezes, me sentia deslocada, porque havia uma coisa muito urbana e besta no meu comportamento. O medo, o silêncio, os pensamentos intrusivos.

Quando mainha fazia a boca de lobo na rede, virando o punho de modo a criar duas orelhas de coelho que se encontram – para a bunda não encostar no chão ao sentar –, achava lindo. Era como se preparasse as cordas de um violão e a música tinha o formato da calmaria. Banho tomado, de talco no pescoço, ia embalando, embalando, embalando. Cortando o rio para chegar em casa, mas ali também era nossa casa e me gabava das redes bonitas que minha vó costurava, que tinham nas varandas muitas rosas de crochê, os punhos trançados, diferentes dos outros punhos, eram obras de arte. Mamãe conta que teve uma vez que caímos de bunda, a rede rasgou ao meio. Rimos. Rir era bom para sentir o movimento da vida e não ter medo do balanço. Pintava o sete com minha revistinha para passar o tempo, que voava, cortando o rio e meu coração.

 

MALCHER, Monique. Flor de Gume, São Paulo: Pólen, 2020. Pp. 14-17.

 


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